{"id":1089,"date":"2021-11-24T10:59:45","date_gmt":"2021-11-24T13:59:45","guid":{"rendered":"https:\/\/direito.idp.edu.br\/blog\/?p=1089"},"modified":"2023-09-06T17:07:21","modified_gmt":"2023-09-06T20:07:21","slug":"revaloracao-da-prova-em-recurso-especial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/direito.idp.edu.br\/idp-learning\/direito-processual-civil\/revaloracao-da-prova-em-recurso-especial\/","title":{"rendered":"Revalora\u00e7\u00e3o da prova e aplica\u00e7\u00e3o da translatividade no recurso especial"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ante as dezenas de milhares de processo tramitando no judici\u00e1rio brasileiro, no qual 263.407 processos est\u00e3o sob an\u00e1lise do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), na tentativa de transform\u00e1-lo em uma terceira inst\u00e2ncia, o tribunal vem se utilizando de uma jurisprud\u00eancia defensiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto se traduz na limita\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise das mat\u00e9rias de ordem p\u00fablica, bem como na impossibilidade do reexame probat\u00f3rio, no intuito de se manter como uma corte federal de uniformiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, aliado a isso, \u00e9 ineg\u00e1vel que o direito sofre uma superespecializa\u00e7\u00e3o, de sorte que muito advogados, escrit\u00f3rios e \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos verticalizam sua atua\u00e7\u00e3o nos tribunais superiores e, em muitas das vezes se deparam com processos carregados de v\u00edcios processuais e de fundamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deste modo, <strong>os institutos da translatividade recursal e a revalora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria se tonaram imprescind\u00edveis para a efetividade da presta\u00e7\u00e3o jurisdicional.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este artigo analisar\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o constitucional do Superior Tribunal de Justi\u00e7a, bem como vincula\u00e7\u00e3o material do recurso especial e, no decorrer do desenvolvimento se abordar\u00e1 o efeito devolutivo das mat\u00e9rias de fato, hip\u00f3teses de incid\u00eancia da s\u00famula 7. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outrossim, a incid\u00eancia do efeito devolutivo e translativo, posicionamento e diverg\u00eancias doutrin\u00e1rias e jurisprud\u00eancias e, por fim, o atual posicionamento do STJ concernentes as mat\u00e9rias de ordem p\u00fablica pelo STJ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, diante da enorme diverg\u00eancia sobre o tema, o presente artigo tem por objetivo demostrar que<strong> reexame probat\u00f3rio n\u00e3o se confunde com revalora\u00e7\u00e3o,<\/strong> hip\u00f3tese na qual o STJ poder\u00e1 dar novo contorno jur\u00eddico aos fatos, bem como a possibilidade aprecia\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica de of\u00edcio pela Corte.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fun\u00e7\u00e3o constitucional do STJ como corte de uniformiza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fun\u00e7\u00e3o uniformizadora se relaciona em estreita margem com o direito e a garantia do princ\u00edpio da igualdade e legalidade, haja vista que o elemento fulcral \u00e9 a uniformidade e aplica\u00e7\u00e3o das regras e princ\u00edpios em todo o ordenamento jur\u00eddico p\u00e1trio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, o <strong>recurso especial tem sua fundamenta\u00e7\u00e3o vinculada as hip\u00f3teses do art. 105, III, \u201ca\u201d \u201cb\u201d \u201cc\u201d da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, que deixam bem claro que o valor principal protegido \u00e9 a isonomia da aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o federal, tanto por interpreta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria<\/strong>, quanto por diss\u00eddio pretoriano ou lei local em face da legisla\u00e7\u00e3o federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale dizer, o interesse subjetivo das partes \u00e9 renegado a segundo plano, de maneira que eventual decis\u00e3o favor\u00e1vel t\u00e3o somente ser\u00e1 consequ\u00eancia lateral da viola\u00e7\u00e3o objetiva da lei federal segundo as hip\u00f3teses constitucionais vinculadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante, o novo <a href=\"https:\/\/direito.idp.edu.br\/blog\/categoria\/direito-processual-civil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">C\u00f3digo de Processo Civil<\/a> ratificou e <strong>ampliou a import\u00e2ncia do STJ como corte de uniformiza\u00e7\u00e3o por meio dos institutos do Recurso Especial Repetitivo e do Incidente de Assun\u00e7\u00e3o de Compet\u00eancia com previs\u00e3o normativa<\/strong>, de forma respectiva, nos artigos 947 e 1.036 do CPC.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deste modo, observa-se que <strong>cada vez mais o legislador busca refor\u00e7ar que a fun\u00e7\u00e3o da corte n\u00e3o deve servir como uma instancia revisora<\/strong>, devendo t\u00e3o somente proteger o direito de forma objetiva. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, evitar a viola\u00e7\u00e3o ao direito federal consoante \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o feita pela jurisprud\u00eancia do STJ em consubstancia\u00e7\u00e3o com o entendimento doutrin\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, mesmo que se evite a aprecia\u00e7\u00e3o dos fatos e provas do caso em concreto, ante o exerc\u00edcio natural da subsun\u00e7\u00e3o normativa em conjunto com aplica\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio devolutividade, ainda que limitada,<strong> h\u00e1 casos em que a Corte dever\u00e1 dar novo sentido jur\u00eddico ao fato incontroverso recorrido e apreciar de of\u00edcio mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica sob pena de reflexamente violar justamente a legisla\u00e7\u00e3o federal<\/strong> a qual se busca proteger e uniformizar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Efeito devolutivo em profundidade e possibilidade de revalora\u00e7\u00e3o das provas sobre os fatos incontroverssos constantes no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 dois aspectos para analisar a mat\u00e9ria de direito, o <strong>ontol\u00f3gico e o foco problem\u00e1tico<\/strong>. O primeiro seria uma quest\u00e3o meramente jur\u00eddica, de maneira que n\u00e3o haveria discuss\u00e3o alguma sobre os fatos, retendo a aten\u00e7\u00e3o do julgador para as regras do direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O exemplo mais did\u00e1tico \u00e9 o caso de uma decis\u00e3o que define a paternidade na qual a controv\u00e9rsia seria o estabelecimento do marco temporal dos alimentos: se seria da cita\u00e7\u00e3o ou da senten\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outrossim, um exemplo bem contempor\u00e2neo objeto de atual controv\u00e9rsia nos tribunais e no pr\u00f3prio STJ \u00e9: a redu\u00e7\u00e3o equitativa dos honor\u00e1rios sucumbenciais quando n\u00e3o for hip\u00f3tese de valor irris\u00f3rio ou inestim\u00e1vel, quando, por exemplo, h\u00e1 extin\u00e7\u00e3o do processo de execu\u00e7\u00e3o pela prescri\u00e7\u00e3o intercorrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outras palavras, no exemplo de acima sequer h\u00e1 men\u00e7\u00e3o a qualquer contexto f\u00e1tico de provas e partes, t\u00e3o somente uma pura an\u00e1lise abstrata da norma, de maneira que tal cen\u00e1rio se equivale \u00e0 mat\u00e9ria puramente de direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, caso haja d\u00favidas de como os fatos tenham ocorrido no qual se faz necess\u00e1rio uma reanalise profunda do processo, provas e pe\u00e7as processuais, haveria, ent\u00e3o, uma quest\u00e3o de fato e, por conseguinte, a impossibilidade de aprecia\u00e7\u00e3o pela corte que n\u00e3o se presta ao papel de tribunal de cassa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, a jurisprud\u00eancia \u00e9 pac\u00edfica no STJ sobre a possibilidade da revalora\u00e7\u00e3o do conjunto probat\u00f3rio dos autos no qual n\u00e3o haja d\u00favida a respeito dos acontecimentos dos fatos,<strong> de modo que \u00e9 poss\u00edvel a Corte conferir novo contorno jur\u00eddico.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante mencionar que, nesse aspecto, h\u00e1 certa similitude com a quest\u00e3o ontol\u00f3gica meramente de direito, isso porque <strong>na revalora\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 obedi\u00eancia de norma que determina o valor que a prova possa ter no caso em concreto<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 reexame dos fatos, por exemplo: como, quem, quando e onde ocorreram? Mas t\u00e3o somente na subsun\u00e7\u00e3o normativa na qual o ac\u00f3rd\u00e3o se inclinou. Lado outro, frisa-se, o reexame da prova ocorre de um exame minucioso, detalhado e da reavalia\u00e7\u00e3o individual das provas constantes nos autos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, outro elemento extra\u00eddo dos arestos mais contempor\u00e2neos do STJ \u00e9 que determinada situa\u00e7\u00e3o f\u00e1tica esteja bem delineada no ac\u00f3rd\u00e3o combatido e se tratar, conforme dito acima, de fato incontroverso, de modo que para que isso ocorra \u00e9 imprescind\u00edvel que os fatos e provas estejam anteriormente pr\u00e9-questionados e, por consequ\u00eancia, a luz do princ\u00edpio da devolutividade sejam apreciados pela corte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concernente ao prequestionamento, pode-se dizer que se trata sobre efetiva aprecia\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o federal que se pretende discutir no recurso especial pelo tribunal local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A professora Teresa Arruda Alvim aduz que o princ\u00edpio da devolutividade \u2013 aplic\u00e1veis a todos os recursos &#8211; significa dizer que com a interposi\u00e7\u00e3o do recurso se transfere ao \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel o conhecimento parcial ou integral da mat\u00e9ria, havendo, assim, duas formas de abrang\u00eancia, a extens\u00e3o e a profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O efeito extensivo se relaciona com aquilo que parte sucumbente delimita a mat\u00e9ria de sua irresigna\u00e7\u00e3o recursal podendo ser total ou parcial, ao passo que o efeito de profundidade se relaciona em estreita margem com a possibilidade de aprecia\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias que estejam conectadas com os fundamentos da do pedido ou da defesa , ou ent\u00e3o as mat\u00e9rias pass\u00edveis de aprecia\u00e7\u00e3o de of\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse aspecto, observa-se que a revalora\u00e7\u00e3o da prova est\u00e1 intrinsicamente ligada com o efeito extensivo daquilo constante no ac\u00f3rd\u00e3o, n\u00e3o podendo a revalora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria extrapolar os limites da mat\u00e9ria factual delimitada sob pena de incid\u00eancia da S\u00famula 7.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esclarecidos estes pontos, passa-se agora a examinar trechos de decis\u00f5es jurisprudenciais a onde se poder\u00e1 constatar a incid\u00eancia dos institutos j\u00e1 mencionados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, \u00e9 poss\u00edvel concluir que o ponto fulcral para revalora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria e o afastamento da S\u00famula 7 se d\u00e1 quando a mat\u00e9ria esteja devidamente pr\u00e9-questionada no ac\u00f3rd\u00e3o e os elementos f\u00e1tico probat\u00f3rios sejam incontroversos e devidamente delineados na decis\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De maneira que a Corte n\u00e3o precise reavaliar se os fatos ocorreram desta ou daquela maneira, mas t\u00e3o somente analisar se moldura jur\u00eddica dada ao caso em concreto se adequada com a legisla\u00e7\u00e3o e entendimento jurisprudencial da pr\u00f3pria Corte, mantendo assim sua fun\u00e7\u00e3o na preserva\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o federal, do princ\u00edpio da igualdade e isonomia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Efeito translativo no recurso especial e a cognoscibilidade de of\u00edcio da mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A translatividade recursal pode ser definida como o efeito \u00e9 subjacente ao princ\u00edpio inquisit\u00f3rio, consistindo na possibilidade da instancia recursal emitir pronunciamento sobre quest\u00f5es de ordem p\u00fablica independentemente do pedido das partes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O tema sobre a possibilidade da cognoscibilidade de of\u00edcio das mat\u00e9rias ordem p\u00fablica desperta diverg\u00eancias doutrin\u00e1rias e, outrossim, jurisprudenciais dentro do pr\u00f3prio STJ, de maneira que h\u00e1 atualmente dois posicionamentos concernentes a possibilidade da aprecia\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro \u00e9 de que \u00e9 necess\u00e1rio que haja pr\u00e9-questionamento expresso da mat\u00e9ria do ac\u00f3rd\u00e3o e da mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica para que seja poss\u00edvel a aprecia\u00e7\u00e3o, sob pena de haver uma esp\u00e9cie de loteria processual na qual o recorrente poderia de forma proposital arguir a mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica ao final para se beneficiar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda nesse sentido, Ruy Rosado de Aguiar, ex-Ministro do STJ defende esse posicionamento ao afirmar que:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c (\u2026) a quest\u00e3o de ordem p\u00fablica, s\u00f3 por isso, n\u00e3o dispensa o requisito do prequestionamento. Isso significaria alterar a substancialmente o sistema recursal desenhado pela constitui\u00e7\u00e3o transformando o STJ em tribunal de revis\u00e3o ordin\u00e1ria\u201d .<\/p>\n<cite> Ruy Rosado de Aguiar, ex-Ministro do STJ <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa mesma linha parece caminhar parte consider\u00e1vel da jurisprud\u00eancia do STJ,<strong> eis que em v\u00e1rios julgados recentes a corte vem aplicando \u00e0 hip\u00f3tese a S\u00famula 211\/STJ , no sentido de que o requisito do prequestionamento \u00e9 exigido inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mat\u00e9rias de ordem p\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 o segundo posicionamento, defendido por parte dos doutrinadores, como doutrinadores (Teresa Arruda Alvim, Bruno Dantas Nelson Nery Junior) e, outrossim, por este artigo, \u00e9 de que <strong>a mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica poder\u00e1 ser apreciada mesmo que n\u00e3o pr\u00e9-questionada, desde que o recurso seja admitido por alguma das mat\u00e9rias vinculantes<\/strong>, isso porque a mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica pela sua pr\u00f3pria natureza j\u00e1 estaria pr\u00e9-questionada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse mesmo sentido, se manifesta Teresa Arruda Alvim, que ap\u00f3s a admiss\u00e3o do recurso a mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica, conquanto n\u00e3o pr\u00e9-questionada, poderia ser apreciada em verdade pelo efeito devolutivo na dimens\u00e3o vertical, n\u00e3o necessariamente pelo efeito translativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais disso, a pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o por meio do art. 1.034 do <a href=\"https:\/\/direito.idp.edu.br\/blog\/direito-processual-civil\/principios-direito-processual-civil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">C\u00f3digo de Processo Civil<\/a> em conson\u00e2ncia com a s\u00famula 456 do STF , preveem que admitido o recurso excepcional poder\u00e1 a Corte superior conhecer de quaisquer quest\u00f5es que envolva o cap\u00edtulo impugnado, refor\u00e7ando, nesse aspecto, o efeito devolutivo na dimens\u00e3o vertical mencionada pela professora Teresa Arruda Alvim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, este entendimento ainda \u00e9 parte do posicionamento jurisprudencial da corte (hoje minorit\u00e1rio, ante preval\u00eancia do primeiro) que advoga ser poss\u00edvel a an\u00e1lise de quest\u00e3o de ordem p\u00fablica independentemente de prequestionamento e mesmo que n\u00e3o alegada pelas partes, desde que a inst\u00e2ncia especial tenha sido aberta pelo conhecimento do recurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ademais disso, soa que o <strong>atual entendimento dominante do STJ parece ser uma jurisprud\u00eancia defensiva no intuito de delimitar as dezenas de milhares de processos que l\u00e1 chegam<\/strong>, conquanto tal posicionamento, data m\u00e1xima v\u00eania, ao meu ver, v\u00e1 de encontro com a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o constitucional de uniformiza\u00e7\u00e3o da Corte e aplica\u00e7\u00e3o ison\u00f4mica do direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale dizer, ao se negar conhecer uma mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica que n\u00e3o foi pr\u00e9-questionada, inobstante o recebimento do recurso por motivos diversos, ocorre por via reflexa a n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o da lei federal e concretiza\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a jur\u00eddica, uma vez que obrigar\u00e1 o jurisdicionado a ajuizar uma a\u00e7\u00e3o rescis\u00f3ria e arcar com novos custos processuais que no ju\u00edzo rescindendo s\u00e3o ainda mais onerosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante, \u00e9 poss\u00edvel observar \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da instrumentalidade das formas , do acesso \u00e0 justi\u00e7a e de uma decis\u00e3o de m\u00e9rito efetiva, porquanto n\u00e3o h\u00e1 que se falar em efetividade jurisdicional sobre uma decis\u00e3o que nega aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito referente a uma mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica sob o pretexto de que o efeito translativo n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel aos recursos excepcionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Surge ent\u00e3o uma quest\u00e3o interessante a partir deste racioc\u00ednio: poderia uma prova obtida por meio de coa\u00e7\u00e3o f\u00edsica irresist\u00edvel que originou uma confiss\u00e3o de d\u00edvida &#8211; comprovada nos autos \u2013 alegada somente na interposi\u00e7\u00e3o do recurso especial ser desconsiderada sob o pretexto da aus\u00eancia de pr\u00e9-questionamento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou mesmo uma d\u00edvida oriunda de um contrato que prescreveu h\u00e1 mais de 20 anos \u2013 que por eventual falha da defesa n\u00e3o foi alegada &#8211; ser desconsiderada pelo STJ, mesmo que o recurso tenha sido conhecido por outros motivos? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria poss\u00edvel afirmar que em tais casos hipot\u00e9ticos a Corte cumpriu seu papel constitucional na aplica\u00e7\u00e3o da lei federal? As repostas, conforme explanado acima, est\u00e3o longe de ter um denominador comum. Entretanto, <strong>a conclus\u00e3o deste artigo vai de encontro como a da parte da doutrina especializada. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, desde que o recurso especial tenha sido admitido \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 an\u00e1lise de mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica ainda que n\u00e3o tenha sido pr\u00e9-questionada, ante o efeito translativo e devolutivo em profundidade em consubstancia\u00e7\u00e3o com art. 1.034 do C\u00f3digo de Processo Civil que est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a s\u00famula 456 do STF.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inobstante as dezenas de milhares de recursos que tramitam no STJ que de forma herc\u00falea lida com excesso de processos, concorda-se que n\u00e3o pode haver o desvirtuamento da sua fun\u00e7\u00e3o constitucional, devendo t\u00e3o somente corte se limitar \u00e0 an\u00e1lise da viola\u00e7\u00e3o objetiva da legisla\u00e7\u00e3o federal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, como efeito colateral do excesso de judicializa\u00e7\u00e3o em muitos dos casos os jurisdicionados s\u00e3o v\u00edtimas dessas vicissitudes, seja referente \u00e0 m\u00e1 qualidade das decis\u00f5es judiciais nas instancias inferiores, seja no defeito por parte da defesa, de maneira que a revalora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria e o efeito da translatividade recursal se tornaram institutos essenciais para a efetividade da presta\u00e7\u00e3o jurisdicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, pode-se concluir que tanto na revalora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria de fatos e provas incontroversos presentes no ac\u00f3rd\u00e3o, quanto o conhecimento de mat\u00e9ria de ordem p\u00fablica sem o pr\u00e9-questionamento no recurso especial conhecido, n\u00e3o h\u00e1 que se falar desvirtuamento da fun\u00e7\u00e3o constitucional da Corte, mas sim o oposto: a aplica\u00e7\u00e3o objetiva da lei federal e a uniformidade da aplica\u00e7\u00e3o da lei, e, por consequente, fortalecimento institucional do poder judici\u00e1rio e maior seguran\u00e7a jur\u00eddica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALVIM, Ang\u00e9lica Arruda. <strong>Princ\u00edpios Constitucionais do Processo<\/strong>. S\u00e3o Paulo Revista de Processo n\u00ba 74. abril\/junho\/1994.<br>ALVIM, Eduardo Arruda. Teoria geral do processo, Revista dos Tribunais, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ALVIM, Teresa Arruda e Dan Bruno \u2013 <strong>REsp e RE e a Nova Fun\u00e7\u00e3o dos Tribunais superiores no Direito Brasileiro<\/strong>, 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Revista do Tribunais, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AGUIAR J\u00daNIO, Ruy Rosado. <strong>Recurso especial: Quest\u00e3o de ordem p\u00fablica. Prequestionamento<\/strong>. Revista de Processo, n. 132. S\u00e3o Paulo: RT, fev 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CARVALHO, Patr\u00edcia Torres Barreto Costa. <strong>Efeito translativo nos recursos excepcionais<\/strong>. Revista de processo, n.171, S\u00e3o Paulo, RT, maio 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CANOTILHO, Jos\u00e9 Joaquim Gomes. <strong>Direito constitucional e teoria da constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>. 4. ed. 2003. Coimbra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GUIMAR\u00c3ES, Rafael. <strong>Recurso Especial e Extraordin\u00e1rio: T\u00e9cnica de elabora\u00e7\u00e3o e julgamento.<\/strong> Ed. RT.2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MOREIRA, Barbosa, <strong>Coment\u00e1rios ao C\u00f3digo de Processo Civil,<\/strong> edi\u00e7\u00e3o .2013.v.5.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">NERY JUNIOR, Nelson. <strong>Teoria geral dos recursos 7.<\/strong> Ed. S\u00e3o Paulo: RT,2014<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PAIXAO, Manuel J\u00fanior. <strong>Teoria geral do processo<\/strong>. Ed. Del Rey: 2002<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Autor: Rafael Nogueira Fernandes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Advogado inscrito na OAB\/MS sob o n\u00ba 21.503, formado pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Regi\u00e3o do Pantanal (UNIDERP) em 2016, P\u00f3s-Graduado em Direito do Agroneg\u00f3cio e P\u00f3s-Graduando em <a href=\"https:\/\/online.idp.edu.br\/curso\/direito-processual-civil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Direito Processual Civil pelo IDP Online<\/a>, turma 2020\/2021. Atuante no contencioso civil e empresarial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este artigo foi publicado por meio do Projeto Editorial de Alunos do IDP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ante as dezenas de milhares de processo tramitando no judici\u00e1rio brasileiro, no qual 263.407 processos est\u00e3o sob an\u00e1lise do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ), na tentativa de transform\u00e1-lo em uma terceira inst\u00e2ncia, o tribunal vem se utilizando de uma jurisprud\u00eancia defensiva. 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